¯\_(ツ)_/¯

Pensando cá com meus botões.

Eu sempre digo que o Facebook é hostil pra quem é de fora do Facebook. Parte da informação que se encontra lá fica totalmente inacessível. Outra parte, você tem que lidar com um banner ENTRE NO FACEBOOK que ocupa um terço da tela, e em cima disso pop-ups de ENTRE NO FACEBOOK.

Se eu me mudar pra uma cápsula na geminisfera (bem provável), isso também pode ser lido como algo hostil. O Facebook é supostamente um espaço aberto ao público, mas exige a criação de uma conta pra ser acessado confortavelmente. A geminisfera é tão aberta quanto a Web (ou mais!), mas exige um navegador adequado. Do ponto de vista do indivíduo, são barreiras. Não importa se o Facebook é um câncer, e o Gemini um bálsamo. O pragmatismo pesa muito.

Pior, fazer uma conta no Facebook é até um processo mais intuitivo. Como escolher dentre os muitos navegadores de Gemini? O Lagrange parece ser o mais popular dos de desktop, mas por que caralhos ele não vem com busca configurada?

O Gemini é muito mais simples que a Web, mas, por ser novo, é estranho e imaturo.

Bom, eu insisto que é um erro pensar que “as pessoas estão no Facebook”. Se você quer alcançar as pessoas, um espaço na Web aberta é fundamental.

E se eu quiser me enfiar na geminisfera, é problema meu. Até porque NINGUÉM ME LÊ MESMO.

Ainda não sei exatamente como me sentir sobre a comunidade Glorious Trainwrecks. Por um lado, gosto da empáfia, de “faça você mesmo porque você quer e pode e não ligue pro que os outros pensam”. Por outro lado, às vezes parece que é uma comunidade dedicada a pegar jogo ruim e falar que é bom. Pior, eles dispensam toda e qualquer apresentação, e ou você mergulha na experiência sem expectativas, ou acaba tendo que ignorar quase tudo.

Mas fico curioso, e andei fuçando. Um cara fez um jogo pra DOS – minto, ele fez o jogo EM DOS, num 286. Aí alguém perguntou: por que caralhos? Qual é a desse povo que fica usando ferramentas antigas?

Gostei da resposta:

It also connects me very directly to a tradition of personal computing that I feel is in some danger of disappearing entirely. Using an MS-DOS 286 is is taking direct control of what my computer does. It is ownership of everything that is on it. Software that was released for it is empowering in a qualitatively different way than today's software; there are unspoken assumptions of user autonomy baked into the tools that I've watched be eroded to nothing over the past twenty years. In the past, the antisocial software that violated those assumptions were viruses, and spyware, and they were to be avoided and eradicated when found. In 2020, all software is spyware; all software is trying to be viral.

https://www.glorioustrainwrecks.com/node/11791#comment-31914

Não trate como eSport quem te trata como End User.

O phpBB antigo não era otimizado pra celulares. O novo é (embora tem gente que ache que não é o suficiente).

Eu acho o phpBB antigo mais confortável de ler no celular do que o novo.

EU NÃO ENTENDO VOCÊS JOVENS!

Tô me perguntando se faz sentido separar blog e microblog.

(Acho que nunca comentei por aqui, mas acho que tinha um esboço aqui sobre a diferença entre site estruturado, blog, microblog, e de como o formato influencia e estrutura a comunicação, mas aí como eu nunca publiquei isso vocês ficam aí assim in medias res.)

(E é claro que eu nunca cheguei a separar as duas coisas por motivos de preguiça, mas tinha toda a intenção, com certeza!)

Estou pensando que não vai ficar tão feio misturar os dois. O blog é meio efêmero, e o microblog é completamente efêmero. Se tiver algo no blog que valha a pena salvar, eu boto noutro lugar.

Bora desestruturar mais ainda essa joça.

Pega essa: tô ouvindo João Gomes. Foi amor nos primeiros dez segundos.

Essa pegada meio universitária não costuma ser a minha praia. Esses forró/sertanejo/arrocha moderno, tudo me bate de um jeito torto. Mas ele tem uma pegada, sei lá, integral. Menino bão cantando músicas de amor. E vocês vão me chamar de maluco, mas sinto que lembra um pouquinho Vladimir Oidupaa.

Eu tava pensando que seria legal morar num lugar com uma densidade populacional urbana “ideal”. Densidade urbana, veja bem, a densidade do espaço urbano, desconsiderando o quanto tem de mato em volta. Isso não é fácil medir, até porque as prefeituras muitas vezes não atualizam o zoneamento, e certas zonas de fato urbanas ficam classificadas como rurais.

Mas aí o IBGE fez um trampo foda pra avaliar isso, analisando o país todo por foto de satélite. Foda! Mas aí eu também não sei mexer com o formato dos arquivos, então me é inútil.

E depois pensei que é inútil tudo, porque não é só a densidade, é a integração. Mesmo o urbanismo sopa de salsicha que Jundiaí e muitos outros lugares estão desenvolvendo deve ter uma densidade legal, mas tem muitos muros e estradas e elevadores separando as casas do comércio e dos serviços.

O que eu tenho que ver é número de carros por habitante. Não deve ser difícil de achar...

Tive uma experiência no SS14 que me deixou meio azedo. Um cara trollando e escrotizando geral. O único segurança era ele mesmo. Não tinha admin. Destruiu a estação, estragou o jogo pra todo mundo. E eu podia ter pego ele de jeito, porque ele era cabaço, e ficava escorregando na água que ele mesmo tinha jogado no chão pra me irritar. Mas eu tentei manter o roleplay, acreditando que eventualmente os admins viriam a mensagem e baniriam o cara. Agora não tenho mais muita certeza se os admins veem essas mensagens. E também não sei se são muito capazes de banir permanentemente um filho da puta esperto e persistente.

É complicado isso de jogar um RPGzão sem mestre com um monte de gente online.

Grizzy e os Lemmings é muito bom, muito engenhoso. Parece Spy vs. Spy das antigas. “Mas Spy vs. Spy é uma bosta, cara!” Sim, mas eu disse “das antigas”. Toda a revista MAD começou revolucionária, e depois virou um arremedo de si mesma, mas o Spy vs. Spy é o exemplo mais marcante. Talvez até porque quem passou a fazer nem é o autor original.

Fio (eca) mostrando como os indígenas têm protegido as áreas demarcadas da devastação ao longo do tempo. https://twitter.com/revolubrait/status/1430656849515270145

[Gandhi] Criticou o sonho de Nehru de querer promover o Estado socialista ideal à custa de uma excessiva centralização do poder. O povo parecer-se-ia a “um rebanho de carneiros à espera de que o pastor lhe encontrasse” as melhores pastagens. Mas os cajados dos pastores”, advertia Gandhi, “tornam-se sempre barras de ferro e os pastores, lobos”.

(Esta Noite a Liberdade, p. 460)

Ah, triste! Vindo pra casa outro dia, vi que estavam cobrindo um grafite clássico do Horácio, pintando uma publicidade por cima. Era um bem antigo, histórico mesmo, de antes de ele ter o estilo que tem hoje...

Por que caralhos o BGG usa o Google Ads pra linkar pra própria loja?!

Se o urbanismo ideal é algo como um purê de batatas, Jundiaí era uma sopa rala, mas decidiram jogar vários pedaços de salsicha nela.

Boldo é muito bom.

Eu não consigo mais navegar a Web no celular. É impossível! Bom que eu acabo fuçando mais a geminisfera.

Senta a bunda e escreve

Tem gente se interessando pelo Logical Curling. Um cara até tentou re-escrever as regras, mas achei que não ficou legal. Daí eu me senti pressionado e fiz algum progresso na minha própria reescrita das regras. Acho que estou indo bem! É que o jogo tem alguns elementos que não seriam tão complexos se analisados separadamente, mas estão todos entrelaçados. O desafio é apresentá-los numa ordem que faça sentido.

Do jeito que eu demoro, parece o jogo mais complexo do mundo, mas não, eu é que sou muito relapso.

Mas olha, teve esse cara, num dia se interessou pelo jogo, no outro já tentou reescrever as regras. Não ficou bom, mas ele foi lá e fez. Isso reforça uma impressão que eu tenho, de que tem dois tipos de pessoas no mundo. Tem gente go-getter que faz e acontece... nunca é perfeito, mas tá lá fazendo. E tem gente (euzinha) que fica se preocupando com detalhes e perfeição e nunca entrega nada...

Abrindo a mente pra RPGs

Voltei a fuçar na lista dos jogos do melhor bundle do mundo, e caramba, tem muitos RPGs de mesa. Estou começando a ficar curioso. Eu geralmente fujo de RPGs. Joguei uns tantos quando era mais jovem, me diverti, mas a maioria da diversão era da zoeira com a galera, e não do jogo em si – zoeira que muitas vezes destoava demais da atmosfera que se buscava estabelecer no próprio jogo. E é um baita compromisso... geralmente. Mas estou tropeçando nuns RPGs intrigantes. Talvez coisa que dê pra fazer campanhas curtas, ou mesmo numa sessão só. Também percebo que me interesso mais no aspecto tático – o crunch – do que na contação de histórias. Eu fujo da contação de histórias, hahahaha! Tenho pavor de mestrar. Mas tem jogos que têm uma ênfase menor na criação da história, ou que oferecem uma estrutura boa pra facilitar o processo e dividir a responsabilidade entre os jogadores. Então quem sabe no futuro.

Calculando aqui o ritmo atual de vacinação, e supondo que se geral tomar 2 doses (ou 3 pros mais velhos) daria 100%, estimo que estaremos 90% vacinados no dia 2 de novembro (mas a tendência é desacelerar agora no final da campanha).

Grupos de jogos, lobisomens, Web hostil, oh my!

Me peguei pensando nos rolês de jogos que rolam por aqui, principalmente o Além do Muro, mas também o Encontro de Itatiba. Eu estava lá, no começo dos primórdios do Além do Muro. O primeiro evento teve umas 30 pessoas talvez? No máximo. Cada um lá era amigo, ou amigo de amigo, ou amigo de amigo de amigo. Todo mundo amigo, afinal. Tinha uma atmosfera cálida, mágica.

Hoje em dia um evento do Além do Muro junta umas 300 pessoas. Os amigos daquela época, quando ainda presentes, estão geralmente ocupados com a organização. Mas tudo bem porque, se foi bom fazer amigos naquela época, vai ser bom fazer amigos agora, né? Mais ou menos. Eu sou sempre bem receptivo pra jogar com gente nova, é o que eu mais faço, mas...

É mais fácil contar uma história pra exemplificar o que eu quero dizer. Certo dia, quando o Além do Muro rolava na biblioteca. Botei o Dameo na mesa e levantei minha plaquinha pra tentar achar um oponente. Um rapaz veio, jogou comigo. Acho que jogamos Lines of Action também, não tenho certeza. Conversamos. Ele estava interessado em alguns jogos Print and Play, mencionou o Empire Engine. Eu conhecia esse! Parecia bom mesmo.

Passam-se alguns anos. O Além do Muro muda de endereço, pra Associação Japonesa, depois pro Multi Moda, e finalmente pro Grêmio. Estou novamente sentado, com o Dameo na mesa, plaquinha levantada, esperando um oponente. Um rapaz se senta e joga comigo. Eu não tinha reconhecido, MAS ERA O MESMO CARA!

Esse é um caso meio extremo. Ele é provavelmente alguém que não frequentava tanto o evento. Mas tive várias experiências parecidas. É tanta gente, que a chance de você jogar duas vezes com a mesma pessoa é pequena. E há outros fatores. Conforme o evento foi crescendo, foi ficando mais trabalhoso, e a periodicidade diminuiu.

Outro fator significativo nasceu dos próprios objetivos do evento. Mesmo que no começo fossem só amigos e amigos de amigos, o objetivo sempre foi divulgar os jogos de tabuleiro modernos. O evento foi atraindo mais gente, mas a maioria das pessoas chega no evento e vai embora em grupos fechados, e não se envolve com a comunidade.

O Encontro de Itatiba, que é muito menor, também sofre desse mal. Os organizadores são muito receptivos, se envolvem. Inclusive promovem regularmente alguns abstratos combinatoriais, jogos com grande potencial de formar comunidades competitivas. Mas o público também vem em grupos fechados, e não tem os avulsos que o Além do Muro tem.

Não posso reclamar de nenhum desses rolês. São sempre uma satisfação. Mas quero recuperar aquela magia dos antigamentes. Decidi cultivar um grupo de jogos regular. Claro que só daqui a alguns meses, quando eu e os outros estivermos muito bem vacinados.

Mas quantas pessoas seriam? Ou, pensando em termos schumacherianos, qual seria o tamanho ideal de uma comunidade? Mais gente é melhor, mas a partir de certo ponto começam a minguar as vantagens e crescer as desvantagens. Primeiramente, eu gostaria de poder jogar todo tipo de jogos. Alguns jogos são só pra dois jogadores. Outros pra exatamente sete. E ninguém pode ficar de fora, então é preciso ter margem pra algum rebolado – se tem oito pessoas no grupo, fechar uma mesa de sete é muita mancada. Se tem nove no grupo, melhora um pouco, mas os dois que sobram podem não estar tão felizes. E se faltar gente, o que acontece?

Um teto de dezesseis pessoas me parece um número ideal. É uma potência de dois. Se fizer um campeonatinho dá um tamanho ideal. Se não vier todo mundo, ainda tá confortável pra jogar qualquer coisa. E há precedentes. No BGG tem um negócio chamado Geek Chat League. Algumas pessoas se cansaram de tentar conversar com multidões aleatórias nos fóruns e decidiram fazer grupinhos semifechados com conversas mais focadas. Tem um bocado de grupinhos assim – todos com 12 a 16 pessoas!

Esse limite me obriga a escolher muito bem quem chamar. O ideal é gente empolgada com o rolê de jogos, e que more perto. Ah, claro, ao cultivar o meu próprio grupo, dá pra definir qual vai ser a pegada dele! Quero gente que não esnobe jogos tradicionais. De preferência, gente que não seja vidrada em saladas de pontos anti-interativas. E é bom o grupo começar pequeno e ir crescendo aos poucos, dá um ritmo melhor pras pessoas irem se conhecendo.

Bônus: num grupo pequeno vai ser muito mais viável se aprofundar em jogos específicos, em vez de jogar cada vez um jogo novo.

Vamos ver. Quem sabe lá pra novembro eu ressuscito meu grupo de The Crew, e, terminando a campanha, eu vejo isso aí.

Lobisomem é um jogo que, nas suas formas mais populares, nunca me encantou. Até que fiquei sabendo que a versão original é bem diferente. Não tem poderes especiais; é possível linchar várias pessoas durante o dia; os lobisomens (ou mafiosos, originalmente) não podem se comunicar durante a noite, e precisam escolher independentemente a mesma pessoa para atacar – se a escolha não for unânime, ninguém morre (mas é anunciado quem foi atacado). Daí que os lobisomens são obrigados a coordenar seus ataques durante o dia, à vista de todos, mas de maneira dissimulada!

Também tem um sistema de pontuação engenhoso, interessante pra quem quiser jogar várias rodadas, ou manter algum tipo de pontuação contínua, ranqueada. Para os lobisomens, é indiferente, talvez até vantajoso, sacrificar seus colegas, enquanto que os aldeões ganham sendo altruístas. Naturalmente, isso abre mais possibilidades de blefe pros lobisomens (podem me matar, mas matem ele também!) E, como o jogo não acaba automaticamente quando morre o último lobisomem, os aldeões podem continuar linchando gente, arriscando uma pontuação menor, em troca de estar mais seguros da morte do lobisomem.

https://web.archive.org/web/19990302082118/http://members.theglobe.com/mafia_rules/

Mas a leitura das regras ao pé da letra levanta uma questão estranha. É aparentemente possível que um lobisomem ataque a si mesmo ou a seus companheiros de equipe[1]. Atacar outros lobisomens, vá lá, disputas territoriais... mas morder o próprio braço? Dar um tiro no próprio pé? Pode ser uma tática válida pra despistar: “fui atacado durante a noite!”; mas não faz sentido, tematicamente. E o risco é quase nulo, já que, pra ser eliminado, um jogador precisa ser atacado por todos os lobisomens – inclusive ele próprio, o que faz menos sentido ainda.

Encontrei outra versão das regras, também bastante antiga, que ainda mantém o elemento-chave da descoordenação dos lobisomens, mas um pouco diferente. Para que eles matem alguém à noite, não é preciso unanimidade; basta uma maioria. De resto, essa versão já se parece com as mais modernas, com apenas um linchamento por dia, com um vidente/inspetor, e sem pontuação. Lobisomens podem atacar e matar seus colegas, mas não a si próprios.

https://web.archive.org/web/20050210091426/http://www.cab.u-szeged.hu/local/mensa/SIG/mafia/mafiarules.html

Me sinto tentado a experimentar a versão original com um ajuste inspirado na versão húngara – que os lobisomens precisem de unanimidade para matar um aldeão, mas que precise de todos menos um para matar um colega. Na versão original, os aldeões só têm certeza de que mataram um lobisomem quando cai a noite e tem um ataque a menos. Nesta versão híbrida, posso anular o ataque do lobisomem que morreu, de maneira que os aldeões nunca vão ter certeza se realmente lincharam um lobisomem, ou se lincharam um inocente e os lobisomens mataram um dos seus durante a noite[2]!

Acho que entendo por que o jogo acabou se transformando no que é hoje. O jogo original é superficialmente simples, mas um pouco anti-intuitivo, com um ritmo mais irregular, desajeitado. Talvez até sem querer, alguém simplificou a fase da noite, e passou a alternar de maneira mais rígida entre as duas fases. O jogo passou a fluir melhor, mas os lobisomens ganharam uma vantagem tremenda, que só pôde ser remediada pelo poder especial do vidente! E isso abriu o precedente pra outros poderes especiais.

[1] O autor mo confirmou por e-mail, é isso mesmo.

Já reclamei por aqui das atualizações do BoardGameGeek. Dessa vez saiu uma pior. Não consigo nem abrir o site.

Vejam bem, eu uso, a maior parte do tempo, um Firefox tunadão pró-privacidade. Mas isso gera incompatibilidade, às vezes. E são vários ajustes, e nem sempre é fácil descobrir qual deles está causando incompatibilidade em cada situação. Eu não sei que nova tecnologia invasiva o BGG resolveu adotar agora, mas a maioria das páginas nem carrega. Se eu rodar uma instância vanilla do Firefox, consigo abrir normal (e perceber que o site tá ainda mais feio e desconfortável, eca).

Eu queria mesmo é não ter que lutar tanto pra ter alguma privacidade. Como disse o Burro, Deus me deu o rabo pra espantar as moscas, mas bom mesmo seria não ter nem rabo, nem moscas.

EDIT: Ok, eles reverteram a mudança. O fato de terem desfeito tudo (e não só corrigido o problema), me faz suspeitar que não, não repensaram a tecnologia invasiva. Só viram que ficou feio e desconfortável mesmo.

Mais xadrez

Pues, a minha previsão de que eu ia preferir as variantes pequenas de xadrez não se concretizou. Primeiramente, o Shogi, que me assustava, agora parece bem legal. Não sei por que tive a primeira impressão de que era complicado? Claro, é bem mais arbitrário que o Xadrez ocidental, mas ainda é simples. Talvez inclusive mais simples de jogar, porque as peças têm movimento mais limitado. Coloquei na categoria B da minha lista interminável de jogos pra jogar – as variantes introdutórias de Shogi ficaram na categoria C.

Teve várias que eu botei na categoria B e, pasmem, não uma, mas duas na categoria A.

Uma delas é Decimaka, uma tentativa de sintetizar o Maka Dai Dai Shogi, que é uma variante grandona de Shogi, na qual as peças são promovidas quando capturam, e às vezes a versão promovida é pior. O autor fez três jogos nessa intenção, e o Decimaka me parece o mais equilibrado – o Shogi Caju é ainda muito grande e arbitrário, e o Xadrez Veterano muito próximo do xadrez ortodoxo.

https://www.chessvariants.com/rules/cashew-shogi https://www.chessvariants.com/invention/decimaka https://www.chessvariants.com/rules/veteran-chess

A outra, Xadrez Maorider não me causou uma impressão inicial tão boa, mas com o tempo fui me animando. A idéia básica é: muitas peças com movimento curto e pontos cegos, e um rei que congela peças inimigas adjacentes e pode convertê-las pro seu exército (e tem uma peça que promove e vira um segundo rei). Tem muitas peças diferentes, o que é meio chatinho, mas deve valer a pena.

https://www.chessvariants.com/invention/maorider-chess

Na verdade meio que já tinha uma variante de xadrez na categoria A da vertiginosa lista. É na verdade um híbrido de xadrez e damas, na medida de 40/60, eu diria. Acho que conta muito mais como variante de damas do que de xadrez.

É Fenix, do Fred Horn. Apesar de ter uma versão comercial lançada só recentemente, o jogo é de 1975. Fred era funcionário de uma universidade, e seus colegas fizeram um clube pra jogar joguinhos na hora do almoço. Mas a galera do xadrez não queria jogar damas, e a galera das damas não queria jogar xadrez (os holandeses levam Damas Internacionais muito a sério). Iam dividir o grupo, quando Fred interveio: “Não! Não cortem o bebê! Vou fazer um jogo que vai unir todas as tribos, como o Norvana.” Aí ele foi lá e fez. 25 anos depois, trombou com um colega daquela época, que disse “A GENTE AINDA TÁ JOGANDO O SEU JOGO!”

Vi muitos híbridos de xadrez e damas no Chess Variants, mas nada interessante. Parece que o tempo todo alguém tem a curiosidade de misturar os dois, faz lá a mistura, e fica uma bosta. Mas Fenix é diferente, talvez justamente por ter uma perspectiva mais próxima do jogo de damas do que de xadrez – a captura por substituição foi abandonada, e a diferenciação das peças muito reduzida. Há a captura obrigatória e múltipla de damas, e a peça real do xadrez – uma mistura que não deveria funcionar. Explico:

As regras de cheque e cheque-mate no xadrez ocidental foram criadas justamente pra evitar finais anticlimáticos, no qual a pessoa perde o rei por causa de um erro bobo. Digamos que, em damas, erros bobos geralmente têm um impacto muito mais granular do que no xadrez, e se não tivesse a regra do cheque, a diferença seria maior. Mas damas às vezes tem longas sequências de jogadas forçadas com capturas múltiplas, difíceis de ler, e não dá pra impor um cheque nessa situação. As derrotas seriam mais repentinas e anticlimáticas. Mas, ah! No Fenix, tomando certos cuidados, é possível regenerar seu rei algumas vezes!

https://www.abstractgames.org/fenix.html

Como esses jogos estão na categoria A da pantagruélica lista, provavelmente consigo jogar dentro da próxima década =(

Estudos mostram que a minha rola é a mais gostosa.

Repetidor TP-Link é um inferno, não comprem.

Tudo bem que parte da culpa pode ser do roteador buguento da Claro. Mas o TP-Link é ruim também.

Estoy muy tristo porque: quebrei um prato.


Mais Gandhi

Conscientes do perigo que, na sua idade, uma greve de fome comportava, os discípulos de Gandhi tentaram dissuadi-lo disso. Mas, bapu – espantou-se o seu velho companheiro do Partido do Congresso C. R. Rajagopalachari, agora o primeiro governador indiano de Bengala –, como se pode jejuar contra bandidos? – Quero tocar o coração dos que estão por trás dos bandidos.

(...)

Ao alvorecer do terceiro dia, a sua voz não era mais que um murmúrio imperceptível e o seu pulso tão fraco que se podia crer a morte iminente. Enquanto a notícia se espalhava, a angústia e o remorso apoderaram-se de Calcutá. Para além dos seus muros, toda a Índia buscava informações sobre o estado de saúde do Mahatma. Produziu-se então o milagre. Se outras cidades do antigo Império das Índias também tinham sido capazes de se deixar arrastar por abomináveis acessos de selvageria, cabia a Calcutá, a mais contestatária e rebelde de todas, o poder de transformá-los em ímpetos de entusiasmo e de generosidade. Enquanto no corpo esgotado de Mohandas Gandhi lutavam os últimos sopros de vida, uma vaga de amor e de fraternidade submergiu de repente a indomável metrópole para salvar o seu benfeitor. Cortejos conjuntos de muçulmanos e de hindus espalharam-se nas favelas mais atingidas pela loucura assassina para aí restaurar a ordem e a calma. A prova definitiva de que um vento novo soprava sobre Calcutá apareceu ao meio-dia, quando um grupo de vinte e sete goonda dos bairros do centro se apresentou à porta da Hydari Mansion. De cabeça baixa, a voz vibrante de remorso, reconheceram os seus crimes, pediram perdão a Gandhi e suplicaram-lhe que renunciasse ao jejum. Algumas horas mais tarde, um dos mais célebres chefes de bando veio manifestar um arrependimento semelhante. A quadrilha de goonda responsável pela mortandade da Beliaghata Road, que determinara Gandhi a jejuar, acorreu por sua vez. Após ter confessado os seus crimes, o chefe declarou ao Mahatma: “Estamos prontos a submeter-nos com alegria a qualquer castigo que escolha, desde que ponha fim ao seu sacrifício”. Querendo provar a sua sinceridade, abriram todas as abas dos seus dhoti para lançar aos pés de Gandhi uma chuva de facas, punhais, sabres, pistolas e “dentes de tigre”, alguns ainda vermelhos de sangue. Para lhes testemunhar a sua confiança, Gandhi murmurou: “A minha única punição será mandá-los aos bairros dos muçulmanos a quem fizeram tanto mal para lhes oferecerem a sua proteção”. (...) Um caminhão cheio de granadas, armas automáticas, pistolas e facas espontaneamente entregues pelos bandos de goonda foi levado ao portão da Hydari Mansion. Notáveis hindus, sikhs e muçulmanos redigiram uma declaração comum prometendo solenemente “lutar até a morte para impedir que o veneno do ódio religioso renasça na cidade”.

(Esta Noite a Liberdade, páginas 387-390)